“Aumentar IVA das portagens teria receitas de 13 milhões”

Nunes da Silva defende portagens para quem vem de Cascais para Lisboa. Preço devia regular-se pelo valor pago na Vasco da Gama.

O vereador para a Mobilidade da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Nunes da Silva, afirma que a utilização de transportes públicos em Lisboa é demasiado burocrática e que a empresa única de transportes e mobilidade fica por agora no papel.

Que medidas é que a Câmara da Lisboa está a implementar para resolver os problema de mobilidade na cidade?
Na parte ambiental, criámos as zonas de emissões reduzidas, com restrições de circulação aos automóveis que não respeitam as normas europeias, como fechar ao trânsito, progressivamente, zonas da cidade em que se registam maiores índices de concentração de poluentes. Estamos a desincentivar o uso particular do automóvel, através da combinação de estacionamento e transportes colectivos, a partir de parques que se situam na periferia.

Outra medida é o apoio aos modos suaves, como a bicicleta. A terceira medida, que infelizmente é aquela em que temos menos capacidade de actuação, é simplificar o acesso ao transporte colectivo. Há um excesso de burocracia para obtenção de passes. É lamentável.

Com o anterior Secretário de Estado estávamos a trabalhar no sentido de criar uma empresa única de mobilidade e transportes na cidade, em parceria com o Governo. Mas não foi para a frente. Agora a prioridade é arranjar dinheiro para pagar o défice.

Então já pediram ao Governo para que os transportes colectivos passem para a tutela da CML...
Era essa a ideia. Ou criar uma empresa mista entre Estado e Câmara. Há vários modelos possíveis. O que era importante é que tivéssemos, à semelhança do que acontece no Porto, alguma intervenção. Actuamos onde podemos, como no estacionamento com a nova política de três áreas de preço diferenciado. A cidade de Lisboa está dividida em três grandes zonas, uma zona onde é possível estacionar quatro horas, mas a partir da segunda hora é mais caro. Fora desta, que corresponde a 62% dos lugares, reduziu-se o custo do estacionamento.

Mas, em contrapartida, nos eixos vermelhos - apenas 3% dos lugares - duplicámos o preço e está limitado a duas horas. A minha intenção é alargar esses eixos vermelhos a ruas ou avenidas onde haja metropolitano, uma frequência de 60 autocarros por hora e parques de estacionamento na proximidade envolvente.

Qual o balanço desta medida?
Começou a funcionar em Junho e o balanço é quase bom demais. Por exemplo, na Avenida da Liberdade registamos entre 20% a 25% de lugares vazios, o que era um dos nossos objectivos.

Em vez do condutor andar à procura de um local para estacionar, que gasta imenso tempo, polui mais e empata o tráfego, agora encontra um lugar rapidamente.

E houve transferência para os parques subterrâneos?
Sim. E na coroa exterior há mais gente a deixar o carro e a apanhar os transportes colectivos.

A EMEL está a estudar um bilhete diário ou semanal para que se possa estacionar em zona residencial ou em junto às estações do metropolitano ou da Carris. O ideal seria ter um bilhete integrado, mas por enquanto ainda não é possível. Esta medida deve demorar mais de seis meses a estar implementada. O tempo de decisão política no nosso sistema autárquico é estupidamente longo. É inadmissível.

E quanto ao projecto Park&Ride, quando estará em funcionamento?
O Park&Ride mensal consiste num bilhete único para estacionar e andar de transportes durante um mês, como custo de 49 euros, resultado de uma pareceria entre várias empresas.

Foi agora assinado o acordo entre a Emel e a Otlis para avançar com os softwares para se iniciar a venda de bilhetes. O que falei anteriormente também é um park&ride, mas com um sistema diário e não integrado, pois o bilhete de estacionamento não serve para andar nos transportes colectivos.

A crise económica e financeira e o preço dos combustíveis está também a ajudar à redução do número de veículos na cidade. Há já muita gente que não tem dinheiro para andar de automóvel, e daí a nossa reacção negativa ao brutal aumento dos transportes colectivos que foi decidida pela Governo para obter 11 milhões de receitas na região de Lisboa. Bastava passar o IVA das portagens da taxa mínima para a taxa máxima para ter receitas acima dos 13 milhões, ou nivelar as portagens existentes pelo valor da Ponte Vasco da Gama. As famílias começam a estar numa situação dramática.

O problema das receitas é crítico, mas há outras maneiras de o resolver, como as portagens no corredor de Cascais, o acesso que leva mais carros para dentro de Lisboa. Todos os dados estatísticos comprovam que esta faixa tem a maior taxa de motorização e o nível de rendimentos mais elevado de todo o país, por isso não há razão para que paguem a portagem mais barata. Os residentes na Margem Sul, com níveis de rendimentos mais baixos, pagam as portagens mais caras. Defendo que todas as portagens sejam iguais nos acessos à cidade de Lisboa, tendo como referência o valor da Ponte Vasco da Gama.

"Sistema de transportes públicos deve ser redesenhado"

Acha que o actual sistema de transportes públicos está esgotado e deveria ser redesenhado?
Completamente redesenhado. Aliás, devo dizer que as administrações das empresas públicas de transportes na zona de Lisboa já perderam a capacidade de inovar e não conseguem sequer imaginar um sistema que funcione de forma integrada. Seria necessário refundar, deitar abaixo e começar de novo. A crise é um factor de oportunidade que poderá motivar essa mudança. Tenho esperança que face à situação grave isto mude, até porque o limite de aumentos dos transportes, de impostos e bens de primeira necessidade, não é inesgotável. Sabe de quanto era a taxa de cobertura dos custos de exploração da Carris pelos bilhetes, antes deste aumento? Era de 75%. Acima de nós, na Europa, só a Noruega e a Dinamarca. A média é de 30 a 40%. Por isso já não é possível pedir mais, e a solução também não está no Orçamento do Estado. Tem de se encontrar outro modelo.

Qual é a importância do projecto Mobi.E - Mobilidade Eléctrica, nos vossos planos de mobilidade para a cidade?
Penso que este projecto poderá vir a ter bastante importância nos tempos mais próximos devido à partilha de veículos, para as chamadas de viagens urbanas de distâncias relativamente limitadas e ao nível de frotas de empresas. Como alternativa de automóvel, de imediato, já tenho mais dúvidas, porque não se renova um parque automóvel assim tão rapidamente.

Os outros projectos da mobilidade, como a criação de uma rede de bicicletas de uso partilhado, estão comprometidos por questões orçamentais?
Este pelouro teve um corte dramático no seu orçamente, de cerca de 60%, o que complica muito a nossa capacidade de intervenção. Já a questão das bicicletas, neste momento, não é de ordem financeira, mas política. Houve um concurso que não correu bem e o contrário do que fora afirmado, esse sistema tinha um custo para a CML de 3,5 milhões de euros por ano, durante 10 anos. E por esse valor prefiro dar uma bicicleta a cada cidadão de Lisboa. Neste momento, nós e a EMEL temos quase fechado um acordo com uma empresa privada que está disposta a pôr bicicletas eléctricas de uso partilhado a custo zero para a autarquia. A CML ainda não tomou a decisão de anular o concurso anterior e aceitar esta proposta, pelo que digo que é apenas um problema político.

fonte:http://economico.sapo.pt/

publicado por adm às 11:21 | comentar | favorito
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