A crise também já chegou à mesa dos portugueses

Ovos, frutas, legumes, carne, arroz e bacalhau são alguns dos produtos que os portugueses estão a comprar mais. Sem poder de compra, e ameaçado pelo aumento dos níveis do desemprego, o consumidor regressou à simplicidade e frugalidade que marcaram os anos 80 e 90. E tornou-se 'profissional' na otimização dos recursos de que dispõe: vai menos vezes às compras, mas vai a mais lojas, procurando os melhores preços.

O início da crise ficou marcado pelo corte abruto no consumo fora de casa, patente, sobretudo, a partir de 2010. O passo seguinte foi o aumento nos gastos com congelados e refeições prontas a comer. É o chamado 'efeito lasanha': não podendo ir ao restaurante, as famílias portuguesas optaram por alternativas equivalentes, para consumo no lar, mas mais baratas. Já 2012 ficou marcado pelo regresso ao básico: aumentaram os gastos com produtos frescos para confeção em casa. Uma opção não só mais saudável, mas que pesa menos na carteira.

A prová-lo estão os dados da Kantar, especialista mundial na análise do perfil de consumo, que refere uma queda de 2,2% na compra de congelados em Portugal, mas, sobretudo, destaca que "6% das famílias abandonaram mesmo" esta categoria de produtos.

Ana Isabel Trigo Morais, diretora geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), assegura que esta nova 'frugalidade' dos portugueses face ao consumo não é exclusiva do segmento alimentar.

"Há uma certa virtude nesta alteração de comportamentos, com um abrandamento muito expressivo da tendência dos últimos anos de substituir o velho pelo novo. Há uma procura crescente de arranjos de costura e de calçado, por exemplo. Em vez de deitar fora, reutiliza-se", diz.

Com o consumo de frescos a crescer 6,7% e a mercearia doce e salgada a aumentar, respetivamente, 5,5% e 5,3% (são dados em volume e são da Kantar), quisemos saber que produtos alimentares consomem mais os portugueses. A APED não tem esses elementos desagregados, mas Ana Isabel Trigo Morais diz que a perceção que existe é que "as pessoas estão a consumir muito mais enlatados e conservas, feijão, grão, atum, etc,", artigos que permitem baixar à fatura mensal.

Sem dados ainda para apresentar, a associação dos comerciantes de carnes asseguram, no entanto, que se está a assistir a uma procura crescente por frango e peru, em detrimento da carne vaca, que é mais cara. Os números dos abates parecem comprova-lo: até outubro, aumentaram em 1,4% e em 6,5% os abates de frango e peru, caindo 1,7% os abates de bovinos e de 5% os de porco.

Quanto ao leite e produtos lácteos, Pedro Pimentel da Associação Nacional dos Industriais de Laticínios, assegura que as empresas do sector se debatem com "quebras de vendas seguramente superiores a 5%".

Diz o dirigente associativo, que o consumo se mantém, em quantidade, mas as pessoas procuram artigos mais baratos, nomeadamente os de marca 'branca', pelo que a quebra é mais significativa nos produtos com maior valor acrescentado, como é o caso dos iogurtes ou dos leites enriquecidos.


"Factor preço é que decide a compra"

Ana Isabel Trigo Morais, diretora geral da APED, comenta as alterações dos hábitos de consumo

O perfil do consumo dos portugueses está mesmo a mudar
Sim. Voltamos a assistir a uma certa frugalidade na escolha do consumidor. Depois da migração do consumo de fora para dentro do lar, houve uma preferência pelos pré-cozinhados, pelos congelados e 'take away', mas agora assiste-se a novo ajustamento, e os portugueses voltam a comprar os alimentos básicos para cozinhar em casa, como forma de rentabilizar recursos.

Isso é exclusivo do segmento alimentar? 
Não, não é. Embora esses dados não estejam estudados e sistematizados, dizem-me que se assiste a uma procura crescente por arranjos de costura e de calçado. Há uma preocupação muito grande em não deitar fora, em reutilizar. E creio que esta tendência se acentuará em 2013.

E ao nível da distribuição, qual será a tendência? Continuaremos a assistir ao aumento de promoções?
A distribuição procura ajudar o consumidor nas suas escolhas com uma oferta alargada. O esquema de promoções tem ajudado as famílias a fazer a gestão dos seus recursos escassos e vai-se acentuar essa atividade promocional em 2013, porque o consumidor se tornou hipersensível ao factor preço. Esse é o factor motivador da compra, há uma menor fidelização às insígnias. Em vez de centrar as suas compras numa só cadeia, correm várias à procura da melhor proposta de valor.

fonte:http://www.dinheirovivo.pt/Ec

publicado por adm às 22:34 | comentar | favorito