Seguro alertou troika para risco de caos social

Na carta que entregou à missão de acompanhamento do memorando, o PS diz que a troika tem de olhar para a realidade e abandonar preconceitos.

António José Seguro disse à troika que o país pode estar a caminho do caos social. Uma via com mais austeridade - ainda que seja concedido mais um ano para aplicar o acordo -, é perigosa, avisa o secretário-geral do PS, na carta entregue aos representantes da missão de acompanhamento, a que o SOL teve acesso. O programa de ajustamento, sublinha, «tem de incorporar os dados da realidade e abandonar preconceitos teóricos». 

A exigência de medidas adicionais de austeridade «descredibilizaria a execução do próprio memorando e contribuiria para a criação de espirais conducentes ao agravamento da situação económica e social e ao falhanço do processo de ajustamento», escreveu Seguro ainda antes da divulgação das novas medidas de austeridade. 

O que o secretário-geral do PS pediu foi um arrepiar de caminho para evitar o desastre. «É urgente uma mudança de políticas», incluindo o ano extra que foi concedido, «de modo a não arruinar a economia nacional e não provocar um caos social», fez saber a Juergen Kroeger, Abebe Selassie e Rasmus Ruffer. 

A carta tem a data de 5 de Setembro, dia do encontro com os membros da missão conjunta do FMI, CE e BCE, que estiveram em Portugal para a quinta avaliação do memorando. Dois dias depois, Passos Coelho anunciou a subida da contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social. 

Uma medida que Abebe Selassie atribuiu directamente a Vítor Gaspar, ontem mesmo: não foi proposta da troika ou «de modo algum» uma contrapartida para flexibilizar o prazo, diz o representante do FMI em entrevista ao Público. 

Seguro disse, à saída da reunião, que «desta vez, a troika vinha com muito menos argumentos para contrapor às propostas do PS». Uma frase que deixava antever a flexibilização do prazo que Portugal obteve. 

Na carta à troika, além de pedir mais prazo, Seguro reafirmou medidas anteriores. E acrescentou uma: a criação de um Programa de Apoio à Recapitalização das PME «de no mínimo 3 mil milhões de euros, financiado por parte dos fundos para a recapitalização dos bancos não utilizados e também verbas disponíveis do BEI». 

Socráticos apertam 

Seguro passou a semana a ouvir dirigentes do partido virem a publico exigir o voto contra ao Orçamento do Estado. Depois de António Costa o dizer com todas as letras, a oposição interna veio sugerir que Seguro ou andava a reboque ou não se decidia. «Seguro não pode tentar gritar mais alto que os outros», contrapõe um conselheiro. 

Quinta-feira, no Facebook, Augusto Santos Silva, ex-ministro de Sócrates, ironizava: «Há algum problema com os microfones do Largo do Rato? É que, ou o povo anda meio surdo, ou a direcção do PS não se está a fazer ouvir suficientemente alto». 

O líder do PS respaldou-se numa declaração que deixava antever o chumbo, sem nunca dizer claramente que o faria. E elaborou uma agenda para se sintonizar com os parceiros sociais que recebeu no Rato. A posição da UGT, transmitida por João Proença, sobre o diálogo social, 'cola' com a atitude de Seguro: a central sindical «não denuncia o acordo de concertação», mas não aceita as medidas de austeridade. Na audiência com Cavaco Silva, pedida pelo líder do PS, ontem, Seguro terá transmitido ao Presidente da República que o PS gostaria de não chumbar o OE. Depois de falar ao país, reuniu a Comissão Política. 

Seguro tem outro dado para mostrar que está em sintonia com o país: as sondagens. Segundo um estudo da Aximage/CM , o líder do PS está pela primeira vez acima do líder do Governo (outra sondagem, a publicar, vai confirmar a tendência). 

Para Seguro isto significa que o caminho seguido - de um afastamento do Governo sem posições radicais - está certo. «O PS não pode confundir-se com a esquerda radical», diz um dirigente socialista.

fonte:http://sol.sapo.pt

publicado por adm às 23:54 | comentar | favorito