Atrair investidores: o que temos e o que nos falta

Empresas estão a sair do país. Outras que queriam entrar, fazem marcha-atrás. Mas há quem ainda aposte em negócios cá

Os australianos da Rio Tinto desistiram de investir nas Minas de Moncorvo. A Nissan também foi embora. Bem como a Bata. Alguns casos que levantam a questão dos prós e contras de apostar em Portugal. Este país vale a pena para fazer negócios? Ainda vale. Mas não em todos os ramos. E a crise impõe-se perante alguns trunfos.

Comecemos por quem «fugiu» de uma economia nos braços da ajuda externa. O consumo privado tem vindo a cair e deve afundar quase 6% este ano. O que não é bom para a Bata, uma empresa que até «tinha feito subida no seu posicionamento para produtos um pouco mais caros e, no caso de Portugal, talvez não seja o momento certo», nota o economista FIlipe Garcia. Não há procura. Não admira que a empresa vá embora. 

No caso da Rio Tinto, a rentabilidade da operação pode ter comprometido o passo decisivo. «Pode não ter havido acordo com o Governo quanto à taxa de concessão» e o negócio ter caído por terra. Filipe Garcia faz notar que se o Governo também cedesse muito nas exigências dos investidores, «outros poderiam querer condições semelhantes» no futuro. Abrir esse precedente poderia dar margem a negócios menos bons. A Agência Financeira questionou os ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Economia sobre os motivos que levaram a empresa a fazer marcha-atrás, mas não obteve resposta.

Apenas nos foi destacado o lado mais positivo, que o há. «Felizmente, há muitas empresas que decidiram, estão a decidir e podem vir a decidir investir em Portugal. O facto de estarmos a fazer reformas importantes - por exemplo nas leis de trabalho ou na justiça económica - aumenta a nossa competitividade e atratividade», assegura fonte oficial do Ministério da Economia.

Quatro exemplos, nos últimos três meses: Huawey, Alstom, Nokia Siemens Networks, Somincor. «Projetos que, somados, representam um investimento superior a 250 milhões de euros e à criação de mais de 2.700 postos de trabalho diretos em áreas diferentes».

Portugal tem «trunfos». «Temos nesta altura um mercado de trabalho bastante disponível», porque há muitos desempregados, nota Filipe Garcia. Para projetos industriais, o país tem, ainda, uma «boa rede de infraestruturas, portos, mão-de-obra abundante, boa vontade do Governo». O economista César das Neves acrescenta que é atrativo também porque está colocado na Europa, tem uma política estável e, claro, «os salários não são muito elevados». 

O investimento tem de versar a produção de bens transacionáveis ou de serviços transacionáveis.« Porque para vender cá está difícil. Para projetos que pretendam cativar procura, caso do retalho - como a Bata, aliás - Portugal não é atrativo. Produzir para vender aqui, não. Somos atrativos para produzir aqui e vender para fora», diz Filipe Garcia. 

E os contras? O «pior» é «claramente» o financiamento. «As empresas não podem contar com os nossos bancos. Depois, o país que está com alguma instabilidade do ponto de vista económico-financeiro, o que para alguns projetos pode ser complicado». César das Neves corrobora: «A incerteza financeira obviamente é um elemento central do investimento. Assim que as coisas normalizarem, Portugal volta a ser um bom destino». 

O certo é que «os disparates que fizemos impedem qualquer pessoa séria de fazer uma aposta a prazo. Não devemos fazer um drama. Não é fim do mundo», mas tem as suas implicações. Há «imensos» defeitos, como o não funcionamento da justica, as burocracias para as quais «os estrangeiros não têm paciência». 

Sobre o papel do Estado no investimento, este economista tem «medo que haja excesso de presença do Governo. O investimento tem de ser uma questão económica. Não de honra política. Politizar demasiado um investimento é um desastre. O que se passa é resultado disso». O Estado é fundamental é para criar «regras claras, estáveis e justas». 

Em breve, os vistos de investimento poderão cativar novas apostas.

fonte:http://www.agenciafinanceira.iol.pt/e

publicado por adm às 21:09 | comentar | favorito