A crise quando chega é para todos?

Licenciados desempregados, empregados que não recebem e idosos que acolhem de novo os filhos em casa são o retrato desta crise.

Quando o ‘rapper' Boss AC lançou a música "Sexta-feira" queria transmitir a sua "visão dos factos". "O retrato que faço da sociedade". A letra da música, que conta a vida de um licenciado que ora está desempregado, ora tem um emprego de salário baixo, mostra como vivem os novos pobres, que "ainda o mês vai a meio" e já estão aflitos.

A música saiu no início de 2012, cinco anos depois da bolha imobiliária do ‘subprime' ter rebentado nos EUA. De lá para cá, a crise foi-se agravando, passou dos bancos para a economia, da economia para os Estados, que se viram obrigados a aplicar fortes medidas de austeridade. Até chegar aos bolsos dos portugueses foi um pequeno salto.

As consequências estão à vista. O Banco Alimentar apoiou, no ano passado, 329.176 pessoas, mais 96 mil desde que a crise começou. O número de famílias a decretar falência disparou. Dados do Ministério da Justiça mostram que, no ano passado, 5.711 famílias faliram, 11,7 vezes mais do que em 2007. No total, as falências decretadas pelos tribunais sobre empresas e famílias apontam para 10.303 insolvências, em 2011, quase quatro vezes mais do que quando a crise do ‘subprime' teve início.

Os números mostram uma realidade nova, que está a caracterizar esta crise e a distingui-la das anteriores. Ter emprego já não garante a sobrevivência. É preciso ter um emprego "bom" e "já", como conclui o ‘rapper' português.

A "desilusão" dos trabalhadores qualificados quando perdem o posto de trabalho e vão procurar emprego é uma das situações já identificada pelo Banco Alimentar como das mais preocupantes. "É um grupo de pessoas, na faixa dos 50 anos que perde o emprego e tem a expectativa de encontrar trabalho. Pensavam que a situação era transitória" e acabou por não ser, explica Ana Vara da comissão de distribuição do Banco Alimentar. Neste grupo estão, por exemplo, licenciados e até pessoas com mestrado ou doutoramento, admite a mesma responsável da instituição liderada por Isabel Jonet.

Há um segundo grupo de pessoas que "até trabalham, mas a empresa não lhes paga ou recebem o salário espaçadamente", acrescenta Ana Vara, referindo que estas pessoas são confrontadas com o dilema de "deixar de trabalhar" ou "manter-se na empresa". Com mais de 800 mil desempregados no primeiro trimestre, a permanência no mercado de trabalho pode ditar a sobrevivência da família.

Além disso, o Banco Alimentar identifica um terceiro grupo de pessoas, que "está a crescer muito". Os idosos já têm reformas baixas e agora confrontam-se com o "regresso a casa dos filhos e netos", porque ficaram desempregados, avança aquela responsável. As instituições apoiadas pelo Banco Alimentar têm identificado o crescimento de casos destes no centro da cidade de Lisboa.

Muitos dos que não têm rendimento são obrigados a recorrer ao Rendimento Social de Inserção, que em Maio já era pago a 335.576 pessoas, mais 19% do que no início da crise.

Enquanto a economia não cria emprego suficiente para reconstruir a vida destas pessoas, o Banco Alimentar vai sugerindo às instituições que apoia soluções "locais", personalizadas à medida de cada família.

Pôr a economia a crescer "demora tempo e não sei se é possível resolver o problema destas pessoas" no tempo que seria necessário, lamenta o presidente do Conselho Económico e Social. Isto porque, "Portugal está sozinho e já não tem instrumentos para resolver o problemas do país". A solução tem de vir do "enquadramento europeu", afirmou, defendendo que a União Europeia tem de evoluir para "modelos mais federalistas". "Costumo dizer que os mercados financeiros reagem ao minuto. Já os mercados sociais demoram tempo, mas podem reagir de forma muito violenta", concluiu.

fonte:http://economico.sapo.pt/no

 

publicado por adm às 21:43 | comentar | favorito