Andam a derreter ouro

Peças de ourivesaria tradicional portuguesa estão a ser derretidas por quem não tem sensibilidade para o valor das obras, numa altura de dificuldades financeiras. E a Associação Portuguesa de Gemologia (APG) alerta para «a destruição de autênticas obras de arte» em lojas de venda de ouro, criticando a falta de qualificações destes comerciantes, que apenas «compram para derreter». 

O fundador do Museu do Ouro Tradicional Manuel Freitas explicou à Lusa que alguns ourives ainda vão tendo alguma sensibilidade para preservar as peças mais valiosas. Mas 90% dessas peças acabam derretidas por «ourives que não têm sensibilidade».

A Associação Portuguesa de Gemologia (APG) também alerta para «a destruição de autênticas obras de arte» na nova moda das lojas de compra e venda de ouro: «Alguns abriram as suas lojas e têm competência, mas infelizmente a maioria não tem. A função deles é comprar para derreter. Isto é muito sério e abusivo, não só para quem vende, mas também para o património deste país», disse o presidente da APG.

José Baptista, que é também avaliador oficial da Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM), adiantou que muitas das pessoas responsáveis por lojas de venda e compra de ouro «não sabem o que têm nas mãos». E não raras vezes destroem, na sua opinião, património português.

Para inverter esta situação, a APG vai realizar, em 2013, um curso de avaliadores de ouro, joias e pratas, com a duração de um ano.

José Batista responsabilizou também a INCM pela situação no setor ao permitir que qualquer pessoa abra um negócio de ouro, sem saber se tem ou não qualificação.

«O grande problema é que a Casa da Moeda está-se nas tintas. Dá licenças, mas não tem a mínima consciência que esta gente vai lesar e vai prejudicar as pessoas. O que interessa à Casa da Moeda é o pagamento da licença e isso é grave», criticou, acusando ainda a INCM de estar a «criar um monstro».

O presidente da APG disse também que «há uma falta de regulamentação¿»e só pode existir fiscalização quando as regras estiveram definidas.

Apelou ainda aos portugueses que queiram vender peças em ouro que se aconselhem junto da APG, que informa gratuitamente sobre o preço real.

A associação de defesa do consumidor DECO, que no ano passado realizou um teste junto de lojas que compram ouro em segunda mão, considera que é urgente também a regulamentação desta atividade, devendo ser definido um limite mínimo para as avaliações em função da cotação do ouro.

O teste prático revelou grandes diferenças no valor do ouro: as 17 lojas visitadas pela DECO ofereceram entre 120 e 220 euros por um libra de ouro que custou 280 euros e a avaliação variou dentro da mesma empresa.

Para a DECO, a situação torna-se mais grave porque muitas vezes os consumidores que recorrem a estas lojas têm uma condição financeira problemática e a urgência na obtenção do dinheiro pode levá-los a aceitar a primeira oferta proposta.
Nesse sentido, aconselham os consumidores que queiram vender ouro a visitar vários estabelecimentos antes de decidir, tendo em conta as variações na avaliação.

A DECO já deu conta das suas preocupações à Assembleia da República no âmbito de um grupo de trabalho criado na comissão parlamentar de Economia e Obras Públicas, que está a analisar a legislação existente para o negócio da compra e venda de ouro em segunda mão e que em breve apresentará um relatório.

Abriram quatro lojas de compra e venda de ouro por dia, em média, no ano passado. Portugal tem das maiores reservas do mundo.

fonte:http://www.agenciafinanceira.iol.pt

publicado por adm às 20:01 | comentar | favorito