Oficinas de automóveis: 10 mil consumidores queixaram-se à DECO

Quem anda de automóvel sabe que a oficina é um local que, mais cedo ou mais tarde, terá de visitar. Para a manutenção regular ou reparação pontual, é o local onde, à partida, estão os profissionais indicados para manter o seu carro pronto para viagens seguras. Mas nem sempre tudo corre de feição. Que o digam os mais de 10 mil consumidores que, entre Janeiro de 2010 e Outubro de 2011, contactaram os nossos serviços para obter informações ou reclamar de reparações. Arranjos defeituosos, incumprimento do prazo indicado e divergência entre o orçamento inicial e a factura final são os principais Investigação anónima problemas comunicados.

Simulámos duas avarias e visitámos, de forma anónima, 25 oficinas. Cerca de metade chumbou na tarefa apresentada. Cobrança de peças não mudadas ou de trabalho não realizado, proposta de reparações desnecessárias, falhas no serviço e preços muito díspares para a mesma intervenção estão no topo das irregularidades encontradas.

Visitas em Lisboa e Porto

Escolhemos oficinas na grande Lisboa e grande Porto para avaliar o serviço de reparação. Incluímos uma de cada marca dos automóveis que usámos no estudo, bem como independentes e de serviços rápidos de redes conhecidas.

Os nossos colaboradores entregaram os carros nos locais seleccionados. Uma vez nas oficinas, explicaram os sintomas da avaria do motor e informaram que o limpa-vidros não funcionava. Perguntaram o prazo da reparação e pediram uma estimativa do custo. Solicitaram ainda que, caso surgisse algo mais para reparar, a oficina deveria avisar primeiro. Se o custo indicado fosse superior a € 500, os colaboradores deveriam pedir um orçamento escrito e avisar que depois dariam uma resposta, mas não avançavam com o arranjo.

Excepto se garantissem que a reparação seria feita de imediato, o carro era deixado e seria levantado na data indicada pela oficina. Quando iam buscar o automóvel, pediam uma factura do montante pago. Perguntavam
ainda se tinha havido substituição de peças e, em caso afirmativo, pediam as velhas.

879 euros por avaria inexistente

As duas avarias que provocámos nos automóveis eram simples de diagnosticar e reparar. O problema no turbo, nos carros a gasóleo, ou na vela, no modelo a gasolina, ficam reparados com uma hora de mão-de-obra. Quanto ao fusível, 30 minutos são suficientes para detectar e corrigir a falha. Tanto a implementação das avarias como a análise das reparações foram feitas por um laboratório.

Das 25 oficinas visitadas, a Midas, em Matosinhos, a Norauto, em Oeiras, e a Feu Vert, em Loures, informaram que reparavam o problema do motor, mas, por não terem electricista, nada podiam fazer quanto ao limpa-vidros. Num automóvel, quando algo no sistema eléctrico não funciona, verificar o estado dos fusíveis faz parte das boas práticas.

A substituição destes componentes é simples e está ao alcance de qualquer técnico. Ficámos surpresos com este tipo de reacção, mas não penalizámos as oficinas que nos avisaram que não reparavam o limpa-vidros.

O preço é um elemento importante na escolha de um produto ou serviço. Nas oficinas, o consumidor fica mais limitado porque pode ter de pagar para saber o preço. Como o carro tem de ser examinado para se descobrir a avaria e poder definir o custo da reparação, as oficinas costumam cobrar pelo diagnóstico. Pedir orçamentos a várias oficinas encarece o custo final. A grande maioria comunicou o tipo de avaria e o preço a pagar. Apenas a Automecânica afirmou que só ligaria a dar o orçamento se este fosse superior a € 60, o que não se veio a confirmar. Já a Bosch Car Service (Auto Jofer) telefonou para indicar qual era a avaria, mas não apresentou valores: disse apenas não se tratar de “nada de especial”. A Carsil e a Bosch Car Service (Graça & Lídia) informaram o preço das peças e indicaram que o restante seria mão-de-obra, sem dar valores totais. As oficinas Feu Vert, em Loures, Gamobar (Peugeot), no Porto, e Precision Benfica, em Lisboa, apresentaram-nos orçamentos tão elevados que não avançámos com a reparação. A Feu Vert pediu-nos quase €880 para reparar o turbo porque este tinha de ser substituído. Por isso, também era preciso mudar o óleo e o respetivo filtro. Apesar de não darmos uma resposta imediata, a oficina não cobrou o orçamento. Já a Gamobar exigiu o pagamento de € 617,33 dado o problema se dever à válvula EGR, limitadora dos gases de escape, que tinha de ser substituída, operação desnecessária. A oficina cobrou-nos € 24,29 pelo diagnóstico.

O orçamento da Precision Benfica totalizava € 650,57 e incluía, entre outras intervenções, a substituição da tampa das válvulas e do tubo do colector de admissão. O laboratório que colaborou connosco não encontrou nenhum problema naqueles componentes. Curiosamente, os três locais repararam a avaria.

O tubo de ligação ao turbo foi sido colocado no lugar e o automóvel já não apresentava os sintomas que o tinham levado à oficina.

Em todos os locais onde aceitámos a reparação, fomos informados do problema e do prazo para resolvê-lo. As oficinas que não deram logo esta indicação, por precisarem de analisar o carro, telefonaram mais tarde. Na grande maioria, o prazo foi respeitado. Apenas nas oficinas Adélio G. da Silva e Auto Jamor se esqueceram do problema no limpa-vidros e só se lembraram quando fomos levantar o carro e questionámos sobre a causa. Mas como estas oficinas não conseguiram resolver a avaria na altura, tivemos de ir buscar o automóvel mais
tarde.

12 oficinas com nota negativa

A qualidade técnica da reparação é o principal elemento para avaliar as oficinas da nossa investigação. Como nem todas repararam as duas avarias, separámos, no quadro, os locais onde fomos avisados que não reparavam o limpa-vidros dos que disseram resolver os dois problemas.

Dos 22 locais que repararam o limpa-vidros, a maioria realizou o trabalho correto, ao substituir o fusível queimado por um novo com as mesmas características do original. A Precision do Cacém, embora tenha feito a reparação correta, usou o fusível de reserva no carro e não o repôs.

Duas das classificações negativas deveram-se à utilização de fusíveis com uma amperagem diferente, que reduz o nível de protecção do sistema. Foi o caso da Automecânica e da Bosch Car Service (DieselSys). Já na Auto Jardim da Maia, o profissional que entregou o carro indicou que, após terem analisado a situação, verificaram haver uma “descodificação do sistema eléctrico”. Por esse motivo, o carro teria de ir a uma oficina da marca “para codificar”: um erro básico de diagnóstico.

Avaliámos 21 oficinas na reparação da “avaria” dos carros a gasóleo. A maioria recolocou o tubo e apertou a braçadeira, sem outras intervenções desnecessárias nem danos.

As oficinas Ribeiro & Graça, Carsil e Renault Telheiras, embora tenham resolvido o problema, efectuaram uma
lavagem do motor sem perguntarem ao cliente se podiam fazê-lo. A factura aumentou devido a uma operação que, embora aceitável, não era essencial para o turbo funcionar correctamente.

A Caetano Auto, além de lavar o motor, ainda acrescentou um aditivo, no valor de 14,13 euros. Das oficinas onde levámos carros a gasóleo, a Midas, na Av. Cidade do Porto, em Lisboa, obteve a única avaliação negativa na resolução do problema.

Apesar de ter colocado o tubo no sítio, aproveitou para fazer uma revisão ao carro, com mudança de óleo e respectivo filtro, bem como o do ar. Uma operação desnecessária e sem justificação, dado o carro ter feito a revisão 2 meses antes e andado apenas cerca de mil quilómetros. Quanto às oficinas que receberam o carro a gasolina, todas fizeram bem a reparação.

Contudo, a Midas, no Centro Comercial Colombo, e a Auto Jamor, substituíram também a bobine da ignição, que não estava avariada. Por esta peça, cobraram-nos € 154,72 e € 95,94, respectivamente.

Todas as oficinas entregaram facturas dos trabalhos realizados. Continham os elementos legalmente exigidos, mas nem sempre a descrição do trabalho realizado ou das peças substituídas estava completa. Tal poderá colocar problemas ao consumidor, caso precise da factura para provar a realização de uma reparação, seja para reclamar de defeitos ou para usufruir dos 2 anos de garantia das peças substituídas. Por poder ser um elemento de prova importante, os responsáveis das oficinas devem garantir que a descrição do serviço realizado é a mais fiel possível. Ao receber o documento, o consumidor deve verificar estes elementos.

Peças e serviços fantasma

As facturas, assim como a descrição feita quando levantámos o carro, permitiram detectar 3 oficinas que cobraram peças não substituídas ou serviços não realizados. Tanto a Bosch Car Service (Graça & Lídia) como a Precision Cacém indicaram ter reparado os cabos do sistema eléctrico do limpa-vidros traseiro, quando, na prática, apenas substituíram o fusível. Na Precision serviu para justificar as mais de 3 horas e meia de mão-de-obra cobradas.

Já a Roady Station Valongo apresenta na factura um tubo de borracha, mas o mesmo não foi substituído. Mais: a nosso pedido, devolveram-nos um tubo que não pertencia à viatura, o que revela um comportamento inadmissível. Apesar de as reparações estarem corretas, estas oficinas foram penalizadas na Apreciação Global, por revelarem uma atitude desonesta para com o consumidor.

fonte:http://www.dinheirovivo.pt

publicado por adm às 13:27 | comentar | favorito