Taxa de poupança cai há mais de 20 anos

Consumo das famílias é dos mais altos da Europa. Poupança do Estado tem sido negativa.

Desde a segunda intervenção do FMI em Portugal, nos anos de 1983 e 1984, a taxa de Poupança dos portugueses caiu consistente e consecutivamente, revela o estudo ‘A Poupança em Portugal', elaborado para a Associação Portuguesa de Seguradores (APS) pelo Núcleo de Investigação em Políticas Económicas (NIPE) da Universidade do Minho.

Segundo Fernando Alexandre, do Núcleo de Investigação Políticas Económicas da Universidade do Minho - que apresentou ontem os resultados do estudo - "é preocupante" o facto de "não terem soado os alarmes" quando se percebeu que a taxa de poupança não mostrava uma evolução positiva no País". O estudo sublinha ainda que são geralmente identificados quatro motivos para as famílias pouparem: "A reforma ou acumular herança; financiar a compra de habitação; financiar o consumo em períodos de quebra incerta do rendimento e garantir um padrão de consumo estável ao longo da vida".

Já a segurança de ter uma reforma do Estado e o incentivo ao consumo por via da facilitação do acesso ao crédito potenciam um decréscimo da poupança por parte das famílias, explicou Fernando Alexandre, acrescentando que o comportamento das famílias, em termos de poupança, é influenciado por diversas variáveis como o desenvolvimento do sistema financeiro, a demografia ou a capacidade de enfrentar momentos imprevisíveis ou os padrões de consumo atingidos e de que as famílias não gostam de abdicar. Mas, salientou, também os "factores culturais são decisivos", remetendo depois para Max Weber, recordando que o sociólogo destacava, no início do século XX "a importância da ética protestante, que favorecia um comportamento austero e frugal, isto é, propício à poupança, no desenvolvimento do capitalismo".

Uma frugalidade que não se verifica nos hábitos das famílias portuguesas, segundo os dados compilados no mesmo estudo, apresentado durante uma conferência organizada pela Associação Portuguesa de Seguradoras (APS), sob o tema ‘As seguradoras e o desafio da poupança'. "O peso do consumo em Portugal está claramente acima do que acontece no conjunto da área do euro. Além disso, enquanto esse peso se manteve sensivelmente constante na área do euro (variou entre 57 e 58%), em Portugal aumentou de 63 para 67%", pode ler-se no documento.

Estado apresenta poupança negativa ao longo dos anos

E se os hábitos de mudança têm que ser alterados pelas famílias, o mesmo tem que acontecer dentro da esfera do Estado, que, revela o estudo da Universidade do Minho tem apresentado, ao longo dos anos, "uma poupança sempre negativa", referindo-se sobretudo àqueles que se seguiram às intervenções do FMI nas finanças nacionais.

Palavras que seriam corroboradas pela Secretária do Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, no encerramento da conferência: "A melhoria dos níveis de poupança dos particulares e das empresas é um processo muito importante, ainda que difícil, e o Governo está empenhado em conseguir alterar os diversos desequilíbrios da economia portuguesa ", afirmou a responsável, admitindo que "a previsibilidade e a estabilidade são uma base muito importante para quem gere poupanças, como é o vosso caso, e nem sempre o Estado deu o exemplo". No entanto, garantiu, "o processo de redução dos níveis de endividamento e o aumento da poupança é incontornável" e "caberá também ao Estado contribuir decisivamente para esse processo", concluiu.

Pontos-chave

- Consumo das famílias portuguesas é superior a 60%, e está dez pontos percentuais acima da média europeia.

- Os 20% de famílias que mais poupa em Portugal representa cerca de 90% do total da poupança no País.

- Cerca de 30% das famílias ainda apresenta uma poupança negativa.

- Entre meados dos anos 1990 e 2007, o endividamento das famílias aumentou de quase 40% para quase 140% do rendimento disponível, um valor histórico.

- O acesso ao crédito, quer pelas empresas quer pelos consumidores, elimina ou reduz a necessidade de poupar.

fonte:http://economico.sapo.pt/

publicado por adm às 17:50 | favorito
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