Subsídios: O que as empresas vão fazer

Os violentos cortes anunciados pelo primeiro-ministro na passada quinta-feira vieram adensar as nuvens negras que pairam sobre o clima social e económico do País. Pedro Passos Coelho classificou o Orçamento de Estado para 2012 como o mais difícil de sempre, cortando, desde logo, os subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos para o próximo ano e o seguinte. A questão que desde logo se colocou tinha a ver com o posicionamento das empresas privadas perante tais medidas. Iriam seguir o mesmo caminho? Serão as perspectivas económicas para 2012 más o suficiente para que se proponha aos trabalhadores do sector privado uma medida de semelhante alcance? O Dinheiro Vivo ouviu alguns empresários sobre esta situação e a procurou tomar o pulso ao que contam fazer tendo em vsta os tempos profundamente recessivos que aí vêm.

Pires de Lima, CEO da Unicer: Este é um OE de aflitos, de um país que perdeu toda a margem de manobra e parte da sua soberania. Só isso explica medidas desta dureza. É feita numa perspectiva de recuperação da credibilidade junto dos nossos credores o mais rapidamente possível, o que é feito mais pela via do corte da despesa do que pela via do aumento de impostos.É uma opção necessária, embora seja de uma dureza absolutamente extraordinária para os funcionários públicos.É difícil de imaginar o que é perder 25% do salário em dois anos. O Governo poderia aplicar a mesma medida ao sector privado, não faz é sentido. O privado tem um sistema muito mais flexível, a sua gestão é feita através do desemprego, tem a liberdade de pagar o que quer aos seus funcionários. Não faz sentido o Estado impor as mesmas medidas da Função Pública, um sistema rígido que não permite sequer diminuir os seus custos através de rescisões amigáveis. Por muito injusto que seja, a única forma de reduzir os custos na Função Pública é reduzindo salários.

António Salvador, Presidente da Britalar: "O Orçamento de Estado para 2012 é o mais violento desde que vivemos em democracia. Disso ninguém tem dúvidas. A conjuntura nacional e europeia aponta para um período de muitas dificuldades nos próximos anos e aguardo que o Governo anuncie rapidamente medidas reais de estimulação da economia, que funcionem como contraponto a este pacote de austeridade agora anunciado. O sector da construção, naturalmente, será um dos mais afectados. Vamos tentar superar estes momentos difíceis com o optimismo possível e estimulando a inovação transversal e estruturante, tanto no tipo de negócios como na própria forma de os realizar. Quanto à questão dos subsídios, a actual crise é de todos. E teremos que ser todos, em conjunto, a sair dela e a encontrar formas de a ultrapassar no mais curto espaço de tempo. O empenho, o esforço e a dedicação terão que ser uma constante forma de estar e de produzir valor nas empresas, quer sejam públicas ou privadas. Não há uma fórmula mágica, nem um único modo para que também os colaboradores possam ajudar a sair deste momento menos bom."

António Marques, presidente da Associação Indústrial do Minho: "Sobre o corte dos subsídios na Função Pública, há que ter em conta que cortar salários é reduzir o rendimento disponível para consumir, logo não se dinamiza a economia.Se a medida se deve estender ao privado? O Estado só tem legitimidade para cortar na Função Pública. No privado, aumentou o horário. Ganhando o mesmo e trabalhando mais, há uma perda de rendimento. Sendo diferente, há aqui uma equidade relativa.”

Ludgero Marques, presidente da Cifial: Os cortes nos subsídios de férias e de Natal, são medidas que se devem tomar quer na Função Pública quer no sector privado, embora aí o Governo possa ter alguma dificuldade em implementá-las. Mas se é preciso fazer sacrifícios todos têm de dar a sua contribuição. É uma questão simbólica.”

Pedro Pimentel, presidente da Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios: "Para 2012, as perspectivas para o sector dos lacticínios não são as melhores, uma vez que o consumo vai cair e, mesmo nos produtos mais básicos, as pessoas tenderão a optar pelos mais baratos. Isto acaba por introduzir uma desvalorização considerável em algumas empresas e a situação tenderá a agravar-se. No que concerne à questão dos subsídios, ainda não houve uma discussão interna sobre a matéria, mas uma coisa é certa: tem que haver um ponto de equilíbrio nas empresas, face ao que será o comportamento dos consumidores. Esta proposta do Governo não obriga a que se faça o mesmo no sector privado. O que me parece fundamental nesta altura é a defesa dos postos de trabalho e isso pode obrigar a alguns sacrifícios. A ser tomada uma medida destas [corte dos subsídios] deve sê-lo com muito equilíbrio e plenamente justificada."

João Costa, empresário e presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal: "As perspectivas para o mercado interno em 2012 são negativas. Não é de prever que haja qualquer melhoria face ao que de mau já vem acontecendo este ano. Já no que diz respeito às exportações, esperamos que se possa caminhar no mesmo nível já alcançado. Agora, é claro que a quebra que as pessoas vão ter nos rendimentos disponíveis se vai reflectir de forma clara no consumo. Quanto ao corte dos subsídios de férias e de Natal, não será necessário nem conveniente que esta medida se estenda ao sector privado. Ela existe para o Estado reduzir a sua despesa e quem paga os salários do sector privado não é o Estado. O sector privado gera as suas próprias receitas, tem um nível de trabalhadores de acordo com as suas necessidades e não paga remunerações acima das suas possibilidades. Não seria correcto tratar de forma igual o que é diferente. Já para não falar no efeito social e económico acrescido que isso teria no agravamento da quebra da actividade económica por via da redução do consumo".

Carlos Furtado, empresário QI/Porto d’Ideias: "Tenho esperança que os empresários e decisores continuem a olhar para a área da comunicação como um investimento e um parceiro para o desenvolvimento dos seus negócios e não como um custo a abater. Por isso acredito que as áreas das relações públicas e das redes sociais venham a ter um incremento em 2012. Quanto à questão dos subsidios, não equaciono como prática para benefício da empresa, o que não significa que a verificar-se uma quebra de negócio não haja necessidade de fazer ajustamentos nos custos. Assumo sim que os trabalhadores das privadas pudessem contribuir também com esse esforço adicional em prol da resolução de um problema nacional."

Fortunato Frederico, presidente do Grupo Kyaia: "Este orçamento é um verdadeiro banho de água fria para quem tem responsabilidades pessoais. Devia ter algumas políticas orientadas para o crescimento económico, mesmo que pouco. Já quanto ao sector privado, não se pode matar o doente. Cortar os subsídios é uma questão que está de momento posta de parte. Temos que arranjar outras formas de ajustamento. Defendo que uma maior carga horária pode resolver qualquer coisa, trazendo mais competitividade às empresas. Os mercados hoje são globais e temos que estar preparados para competir neles. Uma ideia para estimular a economia, que tenho há muito e que o Governo podia aproveitar, era devolver 15 a 20% do IRC, que as empresas distribuíam como lucros pelos trabalhadores. Era dinheiro que depois entrava na economia real."

fonte:http://www.dinheirovivo.pt/E

publicado por adm às 23:58 | comentar | favorito
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