PS hesita na abstenção ao Orçamento do Estado

Ataque de Passos Coelho à herança de José Sócrates na apresentação das linhas gerais do Orçamento irritou os socialistas. Seguro quis ver o OE antes de decidir o sentido de voto.

O anúncio das linhas gerais do Orçamento de Estado, feito ontem por Passos Coelho, lançou a dúvida no PS. Entre os socialistas a opção pela abstenção era já tida como certa. Mas o pacote de austeridade e o ataque cerrado feito pelo primeiro-ministro ao anterior governo irritou os socialistas e lançou a dúvida sobre a viabilização do documento. 

Na reacção, Carlos Zorrinho, líder parlamentar do PS, começou logo por manifestar «dúvidas» quanto ao desvio apontado por Passos nas contas do primeiro semestre – ou seja, ainda na governação de Sócrates. Ainda assim, Zorrinho manteve o discurso de que o PS avaliará o OE à luz do «interesse nacional». 

Este era precisamente o argumento dos socialistas para justificar uma abstenção no OE, uma solução a meio caminho entre a demarcação das propostas do Governo e o comprometimento com as metas da troika. Mas a culpabilização do anterior governo feita por Passos Coelho não facilita o caminho a Seguro – que, numa bancada composta em um terço por membros do anterior governo, não escapará agora a pressões para votar contra. 

O líder do PS terá ainda de enfrentar aqueles que defenderam que o partido devia anunciar a abstenção antes de conhecer o documento. Ainda na manhã de ontem, na reunião do grupo parlamentar, Basílio Horta afirmava que, face ao que ia conhecendo do OE, não via como é que o PS poderia explicar aos portugueses outra opção que não o voto contra. 

«A direcção colocou-se em circunstâncias difíceis. Teria feito melhor em desligar o sentido de voto da apreciação factual» do OE, referiu ao SOL um socialista. 

Mas um eventual voto contra também não será fácil de explicar. Na terça-feira, na TSF, Seguro referiu que «há 0,0001% de probabilidade» de o PS chumbar o OE. 

O PS já estava à espera da tese do Governo de que o novo pacote de austeridade é ainda uma herança dos socialistas, mas não de forma tão violenta. E o mesmo é válido para o pacote de austeridade. 

Para o PS o Governo está a agravar a situação da economia. «O boletim do Banco de Portugal e as previsões do Governo revelam que as medidas de austeridade têm um efeito recessivo. A estratégia de ir para além das medidas acordadas com a troika só agrava» este cenário, diz Pedro Nuno Santos, vice-presidente da bancada com a área da economia. «Admitimos a necessidade de fazer um esforço orçamental considerável, mas se não formos capazes de estimular o crescimento económico temos de repensar as medidas», referiu o socialista ao SOL. 

Oposição mais dura 

O que muitos esperam agora para ver é o combate político que o PS vai mover ao Governo «O PS tem que ser mais assertivo», diz José Lello, membro da anterior direcção. «Esperemos que seja menos delicodoce», defende um outro deputado socialista. Pedro Silva Pereira, número dois de Sócrates, já deixou um alerta claro quanto ao debate do OE, classificando-o, em entrevista à Antena 1, como um «processo de decisão muito importante para a forma como os portugueses olham para o PS». 

Entretanto, a actuação da nova direcção continua a suscitar críticas de falta de abrangência. José Lello diz ao SOL que há «um défice de política no PS: há membros do partido, com experiência, que não são chamados para coisa nenhuma». «Não se esqueçam que isto tem de ser feito com todos», adverte, considerando que «andam a esquecer-se disso». Mais: «Nunca houve no partido uma situação em que se pusesse de parte o contributo de alguns, apenas e só por não terem apoiado o líder».

fonte:http://sol.sapo.pt/i

publicado por adm às 22:01 | comentar | favorito
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